4 de abr. de 2010

Respiro fundo. Uma, outra vez. Mas continuo com o coração aos pulos. Parte de mim quer fugir dali, não quer passar por aquilo, não quer olhar-te nos olhos e ver a desilusão espalhada por toda o teu ser. Concedo a mim mesma este último pedido, limitando-me a fixar o chão. Procuro uma boa justificação mas nada me parece mais razoável que a verdade. Mas eu bem sei como a verdade te irá magoar. E eu não consigo ver-te a sofrer muito menos ao saber que a culpa foi minha, que foi decisão minha. Mas pior seria se te continuasse a enganar. Se te deixasse pensar que era tua.
Inspiro uma última vez e sustenho a respiração. E quando já não aguento mais aquele ar, aquelas palavras, aquela dor que sei que em nada se comparará com a tua deito tudo cá para fora, numa expiração. Foi curto, rápido, como uma facada. Elevo o rosto mas não consigo olhar-te na cara, então fixo as tuas mãos. Estão quietas e parecem-me até um pouco pálidas. Passa um segundo, dois, três. Começas a ficar agitado, as mãos a tremer.
“Porquê?” perguntas. Mas eu não sei responder. Tenho vontade de dizer “a culpa não é tua, é minha.” E apesar de ter a certeza que tais palavras nunca foram proferidas de uma forma tão honesta, não as digo porque sei que não são as suficientes e quando não se sabe o que se dizer mais vale deixar o silêncio reinar. E assim ficamos, em silêncio. Um, dois minutos. As tuas mãos deixam de tremer. Pareces sereno. Então arrisco olhar-te. Má decisão. Paro no teu queixo, onde vejo uma pequena gota solitária. Tenho vontade de a tirar dali mas não consigo mexer-me. Tenho vontade de pedir “desculpa” mas não é suficiente. Mas antes de conseguir pensar em algo inteligente ou oportuno para te dizer pedes-me para te deixar sozinho. O teu último pedido, a ultima coisa que me pedes que eu posso realizar.


"A cobardia é a mãe da crueldade"
Michel de Montaigne



- Fui cobarde. Sou cobarde. Tenho vontade de pedir desculpa.

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